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[Desafio I] Fumaça

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Então gente, eu não morri. Só tava enrolando pra postar o desafio mesmo. Depois de escrever tudo em terceira pessoa e depois resolver trocar tudo pra primeira pessoa. Não to seguro quanto o meu skill em primeira pessoa. vai aí o texto pra vocês dizerem o que acham desse minha tentativa.

A fumaça do cigarro se dissipava lentamente contra a noite escura. Há algum tempo que não fazia uma noite tão bonita e caminhar até em casa depois de assistir “Sonhos de uma noite de verão” pela terceira vez me fazia pensar. Coloquei a mão no bolso interno do casaco onde ficava sempre meu isqueiro e acabei encontrando um papel perdido ali. O recibo de um buque de flores datado de dois meses atrás. Uma enxurrada de lembranças correu dentro da minha cabeça como se alguém em algum lugar tivesse rompido uma represa. Não pude me conter em pegar o celular e escrever três simples palavras: “sinto sua falta”. Mas é melhor não enviar foi o pensamento que me ocorreu logo em seguida. E era melhor não enviar mesmo, sabe-se lá o que poderia acontecer do outro lado da linha. Fiquei admirando a fumaça do cigarro misturada com uma respiração profunda se dissipar a minha frente. Dissipava-se como se dissipam alguns sentimentos e pra mim isso era cada vez mais claro. Lembrou da chama revolta que eram os cabelos dela e do puro verde dos olhos. Talvez ainda valesse a pena lutar por aquilo.
Eu andava tão perdido nesses pensamentos que quando meu dei conta já estava à porta do bar que ficava logo abaixo do meu apartamento comprei mais uma carteira de cigarros e subi as escadas correndo. Tudo estava exatamente como eu tinha deixado o que na verdade era bem previsível já que ninguém freqüentava aquele apartamento além da empregada que vinha todas as quarta-feiras. A xícara de café vazia repousava do lado da maquina de escrever e o radio ainda marcava os três minutos e vinte e dois segundos onde a musica havia sido pausada. Apertei o play e ouvi a inconfundível voz da Janis Joplin cantando “you’re gonna spread your wings” . As vezes parece que a coincidência nos prega peças. Essa musica me lembrava uma tatuagem que talvez eu precisasse esquecer.
Sentei à maquina de escrever pra escrever o artigo sobre a peça de teatro que tinha assistido e tentar me distrair desses pensamentos melancólicos. É verdade que o barulho das teclas da maquina me acalmava principalmente se somado ao cheiro de café que começava a vir da cozinha. Num ponto do texto eu já não sabia mais o que escrever sobre e peça e resolvi pegar uma xícara de café. Agora Janis cantava “piece of my heart” e me ocorreu que eu deveria trocar de cd ao invés de ouvir esse mesmo pela vigésima vez. Engoli o café e pausei a musica de novo. Precisava de ar puro. Peguei a velha jaqueta de couro coloquei o isqueiro no bolso interno e o primeiro chapéu que achei na cabeça.
O bar estava quase vazio e enquanto o barman ia buscar o tal uísque acendi um cigarro e fiquei observando uma moça que estava sentada na mesa ao lado. Ela deve estar esperando alguém e a julgar pelo numero de vezes que ela olha o relógio ele deve estar atrasado. Então um taxi chegou para buscá-la. Mais uma que havia desistido. Meu olhar correu a rua vazia e se deteve na praça que ficava no fim da rua. De onde eu estava podia ver algumas arvores e um casal se beijando sob a luz de um poste. Era o suficiente pra mim virei o copo e pedi para o barman enche-lo novamente. Enquanto isso liguei para o primeiro numero de taxi da agenda do celular. Virei o copo de uísque e subi as escadas correndo pra pegar mais dinheiro.
No taxi uma voz doce de mulher cantava “It’s a quarter after one,I’m all alone and I need you now”. Fiz o taxista parar numa dessas lojas de conveniência pra comprar um bombom de chocolate branco. Enquanto o taxi andava pela cidade peguei a o recibo do buque de flores que havia guardado dentro da carteira e fiquei alguns minutos pensando sobre o que poderia escrever.
Da calçada eu podia ver a janela do quarto dela. Sei que pode parecer meio doentio ficar olhando para uma janela, mas isso amenizava um turbilhão de coisas que corria na minha cabeça. O quarto dela ficava no segundo andar e eu podia ver as cortinas verdes voando pra fora da janela. Ela sempre dormia com a janela aberta mesmo. Uma luz se acendeu no quarto e por um momento pensei que teria que sair correndo dali, mas em seguida tudo voltou a ficar escuro. Um pesadelo talvez. Uma breve lembrança me fez querer estar lá dentro deitado na mesma cama pra simplesmente cuidar dela toda vez que um pesadelo viesse lhe atormentar o sono.
Subi a escada que levava até a porta da casa e larguei no tapete de entrada o bombom com o bilhete no qual estava escrito “dessa vez não tinha nenhuma floricultura aberta. Sinto sua falta”. Pouco me importava o que ia acontecer em decorrência dos meus atos impensados, eu precisava dizer aquilo. Soprei a fumaça do cigarro contra o ar pesado da noite e peguei um táxi de volta pra casa.
O apartamento inteiro cheirava a café, mas eu preferi tentar dormir a deixar que meu cérebro pensasse no que eu tinha feito.

Perdoem qualquer errinho… eu nem reli o texto antes de postar :P

One Response to “[Desafio I] Fumaça”

  1. Jess says:

    Sabe o que é mais impressionante? É você ficar o texto inteiro tentando saber quem está falando e, apesar de não ter resposta, sentir que o conhece de algum lugar. E depois descobrir, ainda, que não faz tanta diferença se o conhece ou não, porque o fato é ainda mais importante. Mas como leitora curiosa eu não canso, sempre bato na mesma tecla: quero mais! :(
    Btw, o melhor da primeira pessoa é justamente essa proximidade. Você se sente mais íntimo do personagem, não é? Ainda que perca detalhes narrativos, acho que nada aprofunda mais uma relação leitor/obra do que as identificações que certos temas/chars levantam. Eu gosto muito.

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