Não, não é Halloween, é quase Natal, e ainda que eu não comemore o que a maioria julga verdade, gosto da beleza decorativa dessa época e do espírito que – mesmo quando ilusório – se manifesta nas pessoas. Acho que cantar “This is Halloween” torna tudo ainda mais gracioso, não? Natal continua sendo Natal, mas não necessariamente. Eis aí uma coisa que descreve bem o meu processo criativo: essa reinterpretação dos eventos, sejam eles externos ou internos.
Esse ano foi sem dúvidas um dos anos mais transformadores da minha vida. Eu fiz inúmeras viagens, conheci os lugares que mais amo no mundo (minha velha Londres) e, sem perceber – ou não -, vivi experiências únicas que, direta ou indiretamente, mudaram minha visão de mundo. De modo decisivo, minha atual área de estudo entrou no campo da escrita e, sob uma perspectiva diferente, ambas se fundiram.
O WB me deu a oportunidade de conceber novos personagens (de forma mais crua e realista), não apenas destrancando certos bloqueios, mas abrindo áreas totalmente inexploradas. Tudo isso é muito mágico. Certa vez ouvi dizer que não devemos transformar os sonhos em realidade, mas a realidade em sonhos. Isso faz sentido, não? Às vezes corremos atrás do vento sem perceber que nem sempre precisamos alcançá-lo, sem saber que para senti-lo basta fechar os olhos. Muito do que eu busco ainda vive adormecido dentro de mim, mas nós já começamos a despertar.
Para fechar esse ano, escolhi um relato sobre um personagem muito especial, que nasceu através, mas não exatamente para o WB. Vocês lembram quando eu disse que escrevia por causa de uma necessidade? Então, esse personagem surgiu de forma simples e descompromissada, mas por ter sido extremamente necessário, jamais se contentou em sê-lo. Bem, as coisas quase nunca acontecem como planejamos – quando começamos a escrever sobre elas -, pelo menos não para mim, mas estou muito feliz que sejam assim. De uma forma ou de outra, o objetivo de tudo isso se cumpriu.
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“Ele possuía olhos azuis profundos, ainda que, para mim, fossem superficiais como uma cova recém-criada. Dwyatt gostava de se esconder sob uma falsa imagem de irreverência e ingenuidade, mas vivia – e sofria – por não conseguir evitar a si mesmo. Ele era na maior parte do tempo introspectivo e inseguro, e acabava quase sempre frustrado por não esquecer-se de ser assim.
O que eu fazia era bem simples: davá-lhe condições para ser quem era, sem máscaras, permitindo-lhe abdicar da opressão, ser completo, ao mesmo tempo em que lhe prestava suporte contra suas angústias, fazendo-o sentir-se melhor – consigo – e protegido – por mim. Dwyatt nunca se sentiria mal ao meu lado – e pediria por mais.
Você se faz sujeito, pervete-se por pessoas e por relacionamentos porque, como drogas, ambos o ludibriam com a temporária sensação de que é alguém melhor – fazem-no melhor. Pessoas também são orgânicas e causam reações químicas – também podem matá-lo como em uma overdose. Eu me viciei em viciá-lo em mim. Éramos dependentes – como a droga e o seu usuário.
C.”
“Às vezes, antes de levantar, eu me flagrava pensando em nós e na relação que mantínhamos. Éramos um conjunto de mestre e obra-prima. Dependentes.” D.
Bem sabe que eu gosto de ver relações doentias sendo retratadas. A pessoa deve ser um mestre da caracterização para fazer algo tão complexo quanto isso funcionar de forma realista e coerente, e tenho certeza de que tu tens a bagagem necessária pra explorar esses cantos escuros da mente humana.
Oh, Jess… Fico muito feliz de te ter ao meu lado nesse projeto. Sempre te admirei mais do que palavras podem expressar, e sempre busquei – como seguirei buscando – teus conselhos por essa estrata tortuosa que é a escrita.
Que venham muito mais descobertas sobre nossos personagens nesse segundo ano que se insinua logo à esquina.